IA na medicina agora tem regra. O que muda no seu consultório.

Se você usa qualquer ferramenta de inteligência artificial no atendimento — um agente que responde no WhatsApp, um assistente que transcreve a consulta, um copiloto que rascunha documentos —, a resolução fala com você. Não há período de adaptação a esperar, e a fiscalização cabe aos Conselhos Regionais de Medicina.

A boa notícia é que a pergunta que costuma aparecer primeiro — “preciso desligar minha IA?” — é a errada. A resolução não autoriza nem proíbe a IA em bloco. Ela define um lugar para ela: ferramenta de apoio, com a decisão sempre do médico. A pergunta útil é outra: onde a IA entra na minha operação, e o quanto ela influencia uma decisão clínica?

Qualquer utilização de IA deverá ser comunicada e explicada aos pacientes, reforçando-se que tais sistemas servem de apoio ao médico, mas não substituem a autoridade e a decisão final humana sobre o cuidado. Resolução CFM 2.454/2026, art. 11

O critério que resolve a maioria das dúvidas

Boa parte das ferramentas não se acomoda bem em “administrativo” nem em “clínico”. A transcrição que vira texto no prontuário, o resumo de histórico que o médico lê antes de entrar na sala, a triagem no WhatsApp que decide se o paciente é encaixado hoje ou daqui a três semanas — nenhuma delas dá diagnóstico, mas todas mexem no cuidado.

O critério prático é perguntar: a saída dessa ferramenta influencia a conduta? O resumo que o médico lê antes de decidir influencia. A triagem que define a urgência do encaixe influencia. O lembrete de consulta não influencia. Onde a resposta for sim, valem as obrigações de registro, de informar o paciente e de avaliação de risco.

Na dúvida, registre. Registrar custa uma linha no prontuário; não registrar custa a impossibilidade de demonstrar o que foi feito. (Esse recorte é a nossa leitura — a resolução não faz essa taxonomia.)

Cinco exigências que mais aparecem no dia a dia

1. O paciente precisa saber que está falando com uma IA

Nada de agente que se apresenta como pessoa da equipe. Se perguntarem, a resposta tem que ser a verdade — e a qualquer momento o paciente pode pedir para falar com alguém. Um parágrafo jurídico enterrado no termo de consentimento não cumpre “de forma clara e acessível”: é preciso decidir quem avisa, em que momento e com que palavras. Se a clínica grava a consulta, o aviso não pode vir depois de a gravação começar.

2. Diagnóstico, prognóstico e conduta não se delegam

A IA não dá diagnóstico, não indica medicamento, não define tratamento. Pode organizar, coletar e rascunhar — a palavra final é sempre do profissional. Há uma vedação que redesenha qualquer atendimento automatizado: comunicar diagnóstico, prognóstico ou decisão terapêutica sem mediação humana é proibido. Avisar que o resultado do exame está disponível é uma coisa; interpretá-lo para o paciente é outra.

3. O paciente pode recusar a IA

É uma recusa informada, como qualquer outra. Uma vez manifestada, ela precisa ser respeitada de forma duradoura — não vale voltar a atender por robô no dia seguinte.

4. O uso de IA vai para o prontuário

Esta é a mais objetiva — e a mais fácil de furar, porque acontece dentro dos quinze minutos da consulta, com o paciente na frente. Sem campo definido e frase pronta, o registro passa a depender da memória de quem atende. Uma anotação possível: “Utilizado sistema de apoio à decisão [nome/versão] na análise de [exame/dado]. Resultado revisado pelo médico assistente; conduta definida clinicamente.” Na Medza isso é gravado sozinho — veja abaixo.

5. Cada solução tem uma classe de risco

Baixo, médio, alto ou inaceitável. A instituição faz uma avaliação preliminar e precisa saber em qual categoria cada ferramenta se encaixa.

O que a Medza já faz por você

Passamos os últimos meses adequando a plataforma. Não como um selo no rodapé do site, mas como comportamento do produto — coisas que acontecem sozinhas, mesmo que ninguém na clínica se lembre da resolução:

Os agentes se identificam como IA

Na primeira mensagem de cada conversa e sempre que perguntados. Essa regra fica acima de qualquer personalização: se alguém tentar cadastrar uma instrução mandando o agente esconder que é uma IA, o sistema recusa e explica o porquê.

Nada de conduta clínica pela IA

Os agentes não dão diagnóstico nem dose. Lembretes de medicação só saem a partir de uma receita finalizada por um profissional. Sinais de urgência — dor no peito, sangramento, falta de ar, ideação suicida — interrompem qualquer fluxo e vão para um humano imediatamente, e essa escalação não pode ser desligada por configuração.

A recusa do paciente é durável

Quem pede para não ser atendido por IA tem o atendimento automático desligado na hora, e a equipe é avisada. A reativação passa a exigir uma pessoa — nenhum robô, régua ou fechamento de ticket religa sozinho.

O prontuário mostra o apoio de IA

Rascunhos do assistente de consulta e do copiloto clínico carregam a origem — agente, modelo, gravação — e quem aprovou. O documento impresso traz a linha “elaborado com apoio de inteligência artificial, revisado e aprovado por…”, citando o artigo da resolução.

Gravação só com consentimento

O paciente lê o termo no próprio celular — por link ou QR code, também no atendimento presencial — e pode aceitar, recusar ou revogar depois. Recusar não afeta o atendimento. O áudio tem prazo de guarda configurável e pode ser apagado a pedido; o prontuário aprovado é preservado, como manda a lei.

Menos dado exposto

CPF, telefone e outros identificadores são removidos antes de qualquer conteúdo clínico seguir para o modelo de linguagem. Dados de pacientes não são usados para treinar modelos.

O que continua sendo seu

Aqui vale a franqueza: nenhum fornecedor deixa uma clínica em conformidade sozinho. A resolução se dirige ao médico e à instituição — a Medza é a desenvolvedora da ferramenta. A divisão fica assim:

A Medza entrega

  • Identificação de IA nos canais de paciente
  • Limites clínicos e escalação de urgência
  • Recusa do paciente respeitada e registrada
  • Registro de apoio de IA no prontuário
  • Consentimento, trilha de auditoria e prazo de guarda
  • A Ficha de IA com a classificação de risco de cada recurso

A clínica responde por

  • A avaliação preliminar de risco (art. 12) — a Ficha de IA é o insumo
  • A governança interna, sob o diretor técnico (art. 14)
  • Usar a IA dentro dos limites éticos da profissão
  • Publicidade médica, quando houver captação
  • Manter a equipe informada sobre o que a ferramenta faz

Sobre “estar em conformidade”. Desconfie de quem vende selo. A resolução não prevê certificação de fornecedor: ela cria deveres para o médico e para a instituição, e exige que a ferramenta dê os meios de cumpri-los. É isso que construímos — e seguimos trabalhando, com contratos de proteção de dados junto aos provedores de IA e relatórios periódicos de desempenho e limitações, como o Anexo III pede.

A tarefa desta semana não é desligar nada

É fazer a lista. Toda ferramenta com IA em operação na clínica — transcritor, resumo de prontuário, sugestão de conduta, triagem no WhatsApp, leitura de exame — e, para cada uma, uma decisão registrada: influencia a conduta ou não? Qual a classe de risco? Quem aprovou o uso?

Depois vem a parte que todo mundo esquece: alguém precisa manter essa lista viva. Ferramenta nova entra na clínica sem passar pela diretoria técnica, e a lista de março não descreve a operação de setembro.

Peça a cada fornecedor a classe de risco e as limitações conhecidas do que ele vende. Se não souberem responder, isso também é uma resposta. Se a ferramenta é a Medza, essa parte já está pronta — é só pedir.

Ficha de IA da Medza

Inventário das soluções, modelos utilizados, dados processados, limitações conhecidas, supervisão humana e classificação de risco de cada recurso — no formato que a sua avaliação preliminar precisa. Fale com o seu contato na Medza ou escreva para suporte@medza.ai.

Este texto é informativo e não substitui orientação jurídica. A íntegra da Resolução CFM nº 2.454, de 11 de fevereiro de 2026, foi publicada no Diário Oficial da União em 27 de fevereiro de 2026, com retificação em 5 de março de 2026.

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